África em Crônica: “Somos todos descolonizados”

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Imagem: Baptiste Debret

Por Leonardo Lupi, Por dentro da África

Leonardo Lupi é estudante de Comunicação Social da UFRJ 

Somos filhos das batalhas argelinas. Do apocalíptico deserto. Da poeira consagrada e sacramentada.

Somos do tempo da guerra. Vemos sangue; lagrimamos. Tudo é rotineiro em nossa vida de espectador. Somos teleguiados; somos plateia neste mundo que é uma grande tragédia grega.

E o palco agora é Argel. A cidade cor de madeira – situada em um ponto africano, flutuante das elites do mundo.

Mas há elites. Há os pied-noirs, há os burgueses, os privilegiados. E há a luta de classes. Sempre há… Não há pedacinho de mundo que não possua confronto ou atrito.

Franceses e argelinos atritavam-se. Foi sangue jorrado para todos os cantos; fez-se arte de matizes vermelhos no branco deserto de Argel.

O cinema foi em busca das memórias, eternizando a batalha em fina película. As marcas, também, ainda ressoam no interior das vítimas – são cicatrizes que perpassam gerações, tornam-se heranças de família e, de quando em vez, voltam a sangrar.

Foi dura a luta por toda a África. Naquele chão em que, outrora, os imperialistas fincaram a bandeira da opressão e perversidade, vivia-se agora uma grandiosa luta por independência.

Liberdade – esta palavra rara. Talvez toda a história da humanidade possa ser resumida em uma única frase: “a eterna busca dos homens por sua liberdade”.

Nacionalismos inspiram a raça humana. Inflam corações vazios, motivam guerras, abarcam as mais diversas diversidades.

O lutar por horizontes também pode ser um perigo. Vive-se o temor do risco, a desgraça da dúvida. Às vezes, porém, é necessário que se ande em direção ao obscuro, principalmente se o conhecido é sombrio e tenebroso.

Congo, Angola, Moçambique, tantos. O Congo que virou Zaire; Angola que já fora de Njinga e agora era palco de guerra civil. É possível liberdade em um solo infestado de minas e mutilados? É possível amar a pátria sendo privado até de alimento?

Salve o povo de Angola. Somos irmãos; filhos de Zumbi, compadres de Martinho. Somos resistência.

A duras penas, vencemos o escravismo, conquistamos a liberdade. Hoje somos povos integrados, embora separados por um oceano e por algumas cruéis desigualdades.

Salve a nossa língua, nosso verdadeiro elo. Salve a “lua de Luanda”, aquela que iluminou conflitos entre a MPLA e a UNITA.

É possível extrair poesia de grupos políticos?

Toda a África é uma grande literatura. Sofrida, controversa, páginas e páginas de uma epopeia.

A Europa, clássica, achava possuir o direito de subjugar África. Mal sabia que o continente negro era anterior a ela – na grande verdade, o “continente-mãe”, pai de todos os outros.

Eis aqui um tema literário: o filho perverso dominando a mãe.

Porém, como toda página pode ser facilmente virada, veio à tona outro conflito, o “movimento do contrário”. É a mãe descobrindo as atrocidades do filho, tentando fugir, penosamente, das garras de sua dominação.

E raiou a liberdade no Triângulo Sagrado. Veio à Terra a justiça em tantas nações africanas, ainda que pouco tenha durado o tempo de degustá-la.

Sobrepôs-se à independência um amontoado de guerras civis, ditaduras sangrentas e mortes. Mataram-se tantos por tão pouco – morreu-se tanto de fome, de doenças, de exploração. Morre-se ainda – é quase que um obituário o noticiário diário africano.

A cada dia em África renasce o sonho da liberdade. E morre sempre, juntamente com cada criança subnutrida e abandonada no solo rachado.

Será possível o sol de África nascer para todos? O sol é um sonho para os que lutam por ele; para tantos outros, é delírio, utopia.

A África é distópica e aquece nossos sonhos. Que em todo entardecer triste possa se acender a chama, em cada coração africano, da eterna busca por liberdade.

Afinal, descolonizamo-nos diariamente; somos todos eternas nações a lutar por um recanto ao sol.

Por dentro da África  

 

 

 


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