Vida pós-ebola: o futuro do sistema de saúde no Oeste Africano

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Epidemia de ebola na África Ocidental – Foto – OMS

Por Gerson Brandão, Por dentro da África

Bamako – Apesar da epidemia do vírus ebola ter sido declarada como controlada e alguns países afetados terem sido considerados como livre do vírus (Bigg, 2015), o pior ainda está por vir no Oeste da Africa. A epidemia declarada em março de 2014 em vários países Africanos (Nigéria, Mali, Senegal, Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa), atingiu, particularmente, em cheio a Guiné-Conacri, Libéria e Serra Leoa, onde mais de 11 mil mortes foram registradas. No entanto, o legado deixado pelo vírus causador do ebola será sentido, com mais profundidade, quando levamos em conta que, entre as vítimas fatais, se encontrava um alto número de profissionais de saúde.

Esta é uma categoria já limitada nessa região do mundo, dificilmente substituível no curto prazo e cuja ausência terá impacto não somente no controle do Ebola, evitando assim o retorno da epidemia, como também será sentida no dia-a-dia dos habitantes desses três países, que continuarão a necessitar de assistência médica. Durante o pico da epidemia, os poucos recursos disponíveis nos países estavam completamente focados no tratamento do Ebola, dessa forma, afetando o funcionamento normal das unidades de saúde e o tratamento de outras doenças como malária e infecções respiratórias, tão comuns nessa parte do mundo.

Países afetados pela epidemia e que implementaram medidas regulares de controle do vírus

País

N° de casos (suspeitos, prováveis, e confirmados)

Casos confirmados em laboratório

Total de mortes

Guiné

3804

3351

2536

Serra Leoa

14122

8704

3955

Libéria

10675

3160

4809

Total

28601

15215

11300

Fonte: Organizaçao Mundial de Saude (30/12/2015).

O vírus causador do Ebola foi identificado pela primeira vez em 1976 (WHO, 2015), após duas epidemias simultâneas: no Sudão e na República Democrática do Congo (antigo Zaire). A epidemia em território congolês foi descoberta às margens do rio Ebola, daí a origem do nome.

A epidemia atual, cujo primeiro caso foi conhecido em março de 2014, é considerada pela Organização Mundial da Saúde, a maior e mais complexa desde que o vírus foi identificado pela primeira vez em 1976 (WHO, 2015). O número de casos e mortes causadas por essa epidemia supera todas as outras epidemias de Ebola já declaradas. Dessa vez, também houve um contágio, sem precedentes, registrado em três continentes, com casos identificados também na Europa (Itália, Espanha e Reino Unido), além dos Estados Unidos.

No entanto, especialistas de diferentes instituições, como o Centro de Controle de Doenças, em Atlanta, ou mesmo a Organização Mundial de Saúde, creditam a gravidade e o alcance da epidemia às carências existentes nos sistemas de saúde onde os primeiros casos foram registrados (Guiné-Conacri, Serra Leoa e Libéria). Além do mais, a epidemia teve um impacto jamais visto nos sistemas de saúde locais, que passaram a se concentrar somente no ebola. Dessa forma, em países como a Libéria houve uma redução de 61% no número de consultas regulares (Evans et al., 2014).

Epidemia de ebola na África Ocidental – Foto – OMS

A Libéria, Serra Leoa e Guiné-Conacri (respectivamente 177°, 181° e 182° entre os 188 estados e países avaliados no Índice de Desenvolvimento Humano de 2015) são países conhecidos por suas limitações, em termos de estruturas e pessoal no sistema de saúde. Além disso, tendo emergido de conflitos somente na última década, não houve o tempo e, tampouco, os recursos necessários para se investir em cuidados básicos de saúde, confirmando a teoria de que as carências já existentes nos sistemas de saúde desses países foi fundamental, não só para a propagação como também para a alta morbididade e mortalidade do vírus.

Ricos em dados sobre o impacto da epidemia no futuro dos países afetados, estudos preliminares levados a cabo pelo Banco Mundial, mostraram que, dependendo do papel desempenhado nos centros de tratamento do Ebola, o risco de contágio vivido por profissionais da saúde era entre 21 e 32 vezes maiores do que a população adulta desses países (Evans et al., 2015). Assim sendo, devido à exposição ao vírus e aos riscos muito maiores, profissionais de saúde foram desproporcionalmente afetados pelo Ebola.

Tomando a Libéria como exemplo, dos 130 médicos que trabalhavam antes da declaração da epidemia nesse país de 4.5 milhões de habitantes; 15 médicos morreram de complicações causadas pelo ebola (WHO, 2015). Assim como o estigma causado pelo vírus fez com que potenciais estudantes de Ciências Médicas estejam agora buscando outras carreiras. Na Libéria, o principal centro de formação de enfermeiros, em 2014, recebeu apenas 400 pedidos de inscrição, ao contrário dos mil candidatos que se apresentaram no ano anterior (Collins, 2015).

Epidemia de ebola na África Ocidental – Foto – OMS

Além das questões relacionadas com falta de pessoal e a esperada dificuldade com a substituição dos profissionais que morreram, um outro legado deixado pelo Ebola são problemas psicológicos e o alto número de sobreviventes que agora apresentam traumas, dores nos ligamentos e cegueira, todas doenças relacionados com o vírus causador do Ebola (Collins & Lazuta, 2015).

Conclusão

Enquanto o Ebola custou a vida de mais de 11.300 pessoas, o combate a outras doenças, como a malária foi largamente negligenciado.

A malária custa a vida de mais de 1000 pessoas por dia, todos os dias, somente no continente africano. Uma luta desigual travada por sistemas de saúde frágeis e que se tornaram ainda mais deficientes devido à perda de profissionais que não serão substituídos imediatamente. Assim sendo, provavelmente, uma porcentagem significante de vítimas da malária será vista no Oeste da Africa, particularmente, em países recentemente afetados pelo Ebola, cujas estruturas sanitárias necessitam, ainda mais, de pessoal qualificado.

Gerson Brandão é mestre em Direitos Humanos pela Universidade de Estrasburgo e foi Coordenador de Programas na Libéria.

Referências:

Bigg, Mpoke (2015), Guinea Declared Free of Ebola Virus That Killed Over 2,500. Disponivel em http://www.scientificamerican.com/article/guinea-declared-free-of-ebola-virus-that-killed-over-2-5002/ Acesso em 06/01/16.

CDC (2014), Outbreak Distribution Map. Disponivel em: http://www.cdc.gov/vhf/ebola/outbreaks/2014-west-africa/distribution-map.html Acesso em 06/01/16.

Collins, Prince (2015), Ebola scares off trainee nurses in Liberia. Disponivel em: http://www.irinnews.org/report/101876/ebola-scares-off-trainee-nurses-in-liberia Acesso em 07/01/16.

Collins, P., & Lazuta, Jennifer (2015), Post-ebola syndrome, it is not over for ebola survivors. Disponivel em http://www.irinnews.org/report/101843/post-ebola-syndrome-it-s-not-over-for-ebola-survivors Acesso em 07/01/16.

Collins, Prince (2015), What happened to Liberia’s Ebola orphans?, disponivel em: http://www.irinnews.org/report/102070/what-happened-to-liberia-s-ebola-orphans Acesso em 07/01/16.

Evans, D., Goldstein, M., and Popova, A. (2015), Health-care worker mortality and the legacy of the Ebola epidemic. Disponivel em: http://www.thelancet.com/pdfs/journals/langlo/PIIS2214-109X%2815%2900065-0.pdf

Acesso em 04/01/16.
WHO (2015), ebola virus disease – key facts. Disponivel em http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/ Acesso em 06/01/16.
WHO (2015), Surveillance strategy during Phase 3 of the Ebola response. Disponivel em http://www.who.int/csr/resources/publications/ebola/surveillance-strategy-phase3/en acesso em 06/01/16.



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