“Tecnologia precisa de meninas”: Iniciativa em Gana capacita jovens para criar softwares

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Natalia da Luz, Por dentro da África

Acra – Não apenas na África Subsaariana, mas em todo o mundo, mulheres e tecnologia deveriam ter uma relação mais próxima desde a infância para aumentar a presença feminina nas áreas da matemática, engenharia, ciência. Com o objetivo de capacitar meninas para liderar, codificar e criar tecnologia, a iniciativa Tecnologia precisa de Meninas (Tech Needs Girls), lançada em 2013, em Gana, lançou um movimento que já alcançou e treinou mais de 2 mil meninas em cinco regiões do país e agora no vizinho Burkina Faso.

– Trabalhamos com meninas de 6 a 18 anos de comunidades carentes para que elas possam codificar e criar tecnologia e servir como mentoras e exemplos para a sociedade – disse, em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, Regina Agyare, fundadora do projeto.

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Em salas de aula, as meninas estudam quatro módulos durante um ano. Esse período de aprendizado reúne alunas iniciantes, intermediárias e avançadas. Além dos módulos, há aulas de design que ocorrem duas vezes por semana para meninas de 18 anos e uma vez por semana para meninas mais jovens. Atualmente, há 40 meninas nas classes de Ouagadougou, (capital de Burkina Fasso)e 51 em Acra (capital de Gana).

– Damos aula em uma favela urbana de Acra e, agora, em outras comunidades. Também ministramos aulas em nosso centro de treinamento e recrutamos jovens que estejam na universidade estudando Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática para o Programa Mentor de Meninas – destaca Regina.

Todo o programa também estimula habilidades de liderança, negociação, trabalho em grupo, empreendedorismo, além de ser uma porta de conexão com estágios e oportunidades de emprego.

Regina conta que as mentoras incentivam a formação de clubes das meninas em suas comunidades, onde elas organizam hackatons (evento que reúne programadores, designers e outros profissionais ligados ao desenvolvimento de software para uma maratona de programação, com o objetivo de desenvolver um software que atenda a um fim específico ou projetos livres que sejam inovadores e utilizáveis) em diferentes regiões de Gana, principalmente nas regiões participantes como Upper West, Greater Accra, Central, Volta e Ashanti Região.

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Além das fronteiras do país, que foi o primeiro a se tornar independente na África, em 1957, há projetos em Burkina Faso, que, em seguida, serão levados para outros africanos de língua francesa.

– Nós trabalhamos em um protótipo, um aplicativo que converte texto em linguagem de sinais e sinais para texto para ajudar crianças surdas a se comunicarem e, desta forma, se integrarem melhor em suas comunidades – explicou a graduada em Tecnologia da Informação na Ashesi University, que decidiu criar a organização após largar um emprego bem pago em banco tomando como missão estimular não apenas a tecnologia, mas a educação na vida das meninas.

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De acordo com a UNESCO, na África Subsaariana, 9,5 milhões de meninas jamais colocarão o pé em uma sala de aula, em comparação com um contingente de 5 milhões de garotos que também não terá acesso à educação. No total, mais de 30 milhões de jovens, entre seis e 11 anos, não frequentam qualquer escola nessa região.

A iniciativa permite que as meninas aprendam a construir soluções para os problemas em sua própria comunidade. Esse trabalho de desenvolvimento de soluções não está relacionado apenas às questões de gênero, econômicas e sociais. Um bom exemplo disso é o aplicativo  que as meninas de Regina criaram após inundações recentes.

– Depois da enchente do último ano, as meninas criaram um protótipo de app que incluiu um sistema de alerta para sinalizar se haveria uma futura inundação. No projeto, havia também uma linha de apoio para pedir conselhos sobre inundações, sobre como gerir resíduos e manter o ambiente limpo, explicou Regina.

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Ao Por dentro da África, Regina diz que a tecnologia é uma parte importante do nosso mundo de hoje; no entanto, a criação de tecnologia é um campo dominado por homens.

– Com habilidades de codificação e grande demanda para tais habilidades, as meninas podem, facilmente, conseguir emprego ou criar tecnologia start-ups para que se tornem economicamente independentes – justifica a empreendedora de 30 anos, completando que as meninas também têm blogs para compartilhar suas ideias e falar sobre questões que são importantes para suas comunidades.

Combate ao casamento infantil

Em uma região onde o casamento infantil é um problema sério, Regina diz que usa a codificação para mostrar o valor da menina. Tradicionalmente, meninas são casadas porque seus pais acreditam que há mais valor em seu preço de noiva e eles vão acabar no cozinha de qualquer maneira.

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De acordo com dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e do Fundo da ONU para a Infância (UNICEF), o número de mulheres e meninas que terão casado durante suas infâncias poderá chegar a 1 bilhão em 2030.

Em todo o mundo, todos os anos, 15 milhões de meninas são casadas antes dos 18 anos, o equivalente a toda a população do Zimbábue ou do Mali. A parceria mundial “Meninas, não noivas” (que reúne mais de 500 organizações) quer conscientizar as comunidades para essa prática, com a ideia de postergar o casamento precoce e evitar as uniões forçadas, que acontecem, principalmente, na África.

Leia a reportagem especial do Por dentro da África

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Para ONU, o casamento infantil forçado é realidade análoga à escravidão. Em declaração conjunta de um grupo de especialistas em direitos humanos das Nações Unidas, para marcar o primeiro Dia Internacional das Meninas, quinta-feira, 11 de outubro de 2012, foi dito que “as meninas que são forçadas a se casar podem estar se comprometendo com um casamento análogo à escravidão para o resto de suas vidas. As meninas que são vítimas de casamentos servis experimentam servidão doméstica, escravidão sexual e sofrem violações de seu direito à saúde, à educação, à não discriminação e à liberdade contra a violência física, psicológica e sexual.”

Os países com a maior prevalência de casamento infantil, de acordo com o UNICEF, são: Níger (76% das meninas são casadas aos 18 anos e 28% com 15), República Centro-Africana (68% das meninas são casadas com 18 e 29% com 15) e Chade (29% das meninas são casadas com 15 anos de idade e 68% com 18).

Foto: Usaid.gov - Child Marriage
Foto: Usaid.gov – Child Marriage

-Precisamos da diversidade e da perspectiva feminina na tecnologia. Mulheres e meninas pensam sobre a família e comunidade. Assim, nós sabemos que as soluções tecnológicas beneficiarão famílias e comunidades, especialmente em África. Com tal independência econômica, elas poderiam ajudar suas famílias, coisa que apenas os meninos faziam – destacou Regina.


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