Associação lança revista científica sobre estudos africanos

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Por Dentro da África

Mercado do Zango IV em Luanda, Angola. (Foto de Washington Santos Nascimento)

A Associação Brasileira de Estudos Africanos, entidade nacional que congrega pesquisadores, docentes e interessados nas áreas de estudos sobre África, acaba de lançar o primeiro número da Revista da ABEÁfrica, publicação acadêmica semestral que reúne trabalhos inéditos com o objetivo de disseminar e desenvolver os estudos africanos no país.

A publicação tem perspectiva interdisciplinar, envolvendo campos do conhecimento tais como a Antropologia, Ciência Política, Educação, Geografia, História, Literatura e Crítica Literária, Relações Internacionais, Sociologia e outros.

O primeiro número traz oito artigos e três resenhas, trabalhos estes desenvolvidos por profissionais pioneiros nestas áreas, além de jovens pesquisadores, e inclui estudos realizados fora do Brasil, o que demonstra desde o início a vocação internacional da revista. 

Clique aqui para ver o sumário da 1.ª edição 

A revista oferece acesso livre a todo o seu conteúdo, seguindo o princípio de que disponibilizar gratuitamente o conhecimento científico ao público proporciona maior democratização mundial do conhecimento.

O professor de História da África da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e editor da Revista da AbeÁfrica, Washington Santos Nascimento, conversou com o Por Dentro da África sobre os desafios e a importência deste novo projeto.

De que maneira a nova publicação pode contribuir para o fortalecimento dos Estudos Africanos no Brasil?

Os estudos africanos são uma área consolidada no país, campos como o de Literatura e Antropologia já têm uma trajetória extremamente longa. Outras como história e sociologia estão em vias de uma consolidação não só acadêmica, mas também institucional. Isto sem falar de Geografia, Relações Internacionais e etc. Então o que a revista pretende ser, junto com a Associação, é uma forma de articulação entre estes diferentes campos.

De maneira mais geral ela pretende também tornar mais explícito o caráter inter e transdisciplinar dos estudos africanos, se isto não é necessariamente uma especificidade da nossa área, a revista torna esta dimensão ainda mais visível.

Além disso a proposta da revista é trazer ao público brasileiro textos de pesquisadores de fora do país. É fato que grande parte dos textos ainda estamos muito concentrados nos países de língua portuguesa, mas essa é uma diretriz da revista: atingir outros espaços de produção.

Quais foram os maiores desafios no processo de edição?

Primeiro creio que tenha sido tentar dar um rosto, uma marca para a revista como sendo uma “revista profissional” da área de estudos africanos, bem como uma referência acadêmica.

O primeiro número da revista foi organizado com texto de quatro referências dos estudos africanos: Carmem Tindó, Mariza Soares, José Rivair e Augusto Nascimento. Depois textos de pesquisadores mais jovens, que mostram os desdobramentos mais recentes das pesquisas. Na seção resenhas objetivamos debater sobre livros da nossa área recentemente publicados.

Há ainda uma seção dedicada a memória dos estudos africanos, que neste número foi dedicado ao professor Alexandre Vieira, recentemente falecido e que nas próximas edições pretende realizar entrevistas com pesquisadores brasileiros ou estrangeiros ligados os estudos africanos.

Referenciar e reverenciar nomes como Kabenguele Munanga, Carlos Serrano, Laura Padilha, Petronilha Gonçalves, Henrique Cunha Junior… ,os nossos “mais velhos” , são importantes para a história da nossa área e pelo respeito a aqueles que são os pioneiros, afinal se existe uma área de estudos africanos no Brasil é graças a eles.

Por fim uma última seção dedicada a uma discussão de imagens, nesta primeira uma discussão sobre a imagem de um mercado de Luanda, Angola.

Nós gostaríamos também de colocar os trabalhos que tem sido defendidos em nossa área seria de grande importância, entretanto se você pensar só no campo das literaturas africanas quantas dissertações e teses são defendidas em um ano, o volume é extremamente significativo.

Só para termos ideia no Banco de Teses e Dissertações da Universidade de São Paulo (UFRJ), só no ano de 2018 foram defendidas 46 dissertações e teses com temas africanos, quando você aumenta a busca das defesas em outras instituições como Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal Fluminense (UFF)… é impossível catalogar e divulgar todas elas em nossa revista.

Quando fomos também quantificar a quantidade de livros publicados, sem restringir obviamente tão somente a área de história, o volume de publicações também é muito significativo, então esse primeiro trabalho que realizamos para “dar notícia” na revista do que vinha sendo pesquisado e publicado, revelou o gigantismo da nossa área em um país de dimensões continentais como o Brasil, por outro lado, demonstra a necessidade de uma maior articulação entre professores e pesquisadores de áreas e regiões distintas do país.

Só para exemplificar o que disse acima, há pesquisas e publicações feitas a partir de Pernambuco e Maranhão que são muito significativas para a nossa área e que não circulam, pois este gigantismo é concentrando ainda no eixo sudeste (São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais ) de produção do conhecimento, somado uma “ilha” que é a Bahia.

Então o trabalho com a revista revelou por um lado o gigantismo da nossa área e por outro a falta de articulação existente nela.

Como se dá o processo de conceituação da revista? Há uma meta ou planejamento estratégico em relação a isto?

O que nós estamos propondo é de que a revista seja referência em relação aos nossos pares e aos leitores. Que os pesquisadores entendam a mesma como um veículo importante de divulgação das suas pesquisas, por isso abrimos a revista para publicação para quaisquer níveis de pós-graduação. Entretanto ela não permite ainda publicar textos de graduandos e graduados, não porque não sejam relevantes, mas pela incapacidade nossa de filtrar a grande quantidade de trabalhos, só para termos uma ideia, neste primeiro número recebemos aproximadamente 50 artigos, o que nos faz ter que acionar uma rede de pelo menos 100 pesquisadores/pareceristas, então o que percebemos é que a revista já é bem conceituada. Isso não quer dizer que ela não se afinará com as diretrizes relativas a avaliação qualis. Ela tem todos os parâmetros para ter uma boa nota na próxima avaliação.

Quais os desafios da Revista — e também de toda a comunidade ligada aos Estudos Africanos no Brasil — , considerando o atual cenário político no Brasil?

Estamos em um contexto em que os professores estão sob ataque, as humanidades em especial são acusadas de uma suposta doutrinação. Quem está no poder precisa de inimigos para poder manter seu discurso de nós contra eles (por ironia o mesmo tipo de acusação que era feita quando do governo do Partido dos Trabalhadores) e nós somos esses “eles”.

Então é um contexto no qual vamos ter que mostrar nossa força de articulação e ajuda mútua, não contra um governo, até porque a Associação e a Revista têm uma existência e representatividade que está além de qualquer governo em específico. Mas ajuda no sentido de introduzir novos pesquisadores, usar outros mecanismos (como e-books) para divulgação de novas pesquisas, buscar recursos fora do país (pois os editais devem sofrer uma reorientação para além do eixo sul-sul) e contribuir não só para o fortalecimento acadêmico, mas também político da nossa área.

Mais da metade das pessoas deste país se reconhece como sendo descendente de africanos, elas merecem conhecer sua história e a história do continente do qual seus ancestrais vieram, porque isto dá parâmetros para a construção de suas identidades. Neste sentido a Associação e a Revista, pode dar uma contribuição importante, independente do governo que está no poder.

Submissões

Está aberta até o dia 1.º de abril de 2019 a chamada para submissão de trabalhos para o segundo número da Revista da ABEÁfrica. Podem ser submetidos artigos, traduções, resenhas, entrevistas e notas de pesquisas em fluxo contínuo. Poderão publicar na revista pesquisadores com titulação mínima de mestre, ou que ao menos um dos autores do texto tenha a referida titulação. Todo o processo de submissão dos artigos deve ser feito através da página da Revista.


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