‘Democratizando o conhecimento’, por Gabriel Ambrósio

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Escola Africa
Estudantes na República Democrática do Congo – Foto: Dominic Chavez/ Banco Mundial

Gabriel Ambrósio, Por dentro da África

Luanda – Segundo o dicionário de filosofia Mora [2], (1982.p. 74) Entre as respostas radicais não são as mais frequentes na história da teoria do conhecimento, o mais comum é adotarem variantes moderadas do ceticismo ou dogmatismo. Com efeito, nas formas moderadas, costuma-se afirmar que o conhecimento é possível, mas não de um modo absoluto, só relativamente. Os céticos moderados costumam defender os limites do conhecimento, os dogmáticos moderados costumam defender que o conhecimento é possível, mas dentro de certos supostos. Tanto os limites como os supostos se determinam por meio de uma prévia “reflexão” “crítica” sobre o conhecimento. Diante disso, pensemos: será que existe a reflexão crítica em alguns dos nossos intelectuais?

Parece que os críticos são poucos. E mais, a pergunta vai para os restantes ditos “intelectuais”, “doutores” de gabinetes, que passam a “lamber botas”, jogando os conhecimentos aprendidos pelas águas do Oceano Atlântico. E aqueles doutores que não pesquisam, que apenas ganham dinheiro com títulos. Há muitos casos desses em vários países africanos.

Onde circula o conhecimento reflexivo em Angola, onde será? Certamente, muitos podem estar se questionando e acusando uns aos outros. Sabemos que muitos e muitas têm, mas admitamos que outros não têm. Sabe-se também que políticos, jornalistas e outros membros da sociedade são admirados porque possuem certos conhecimentos manipulativos. Assim, muitos não querem que você (cidadão) tenha uma reflexão crítica.

Principalmente na TV, na rádio, universidades, igrejas entre muitas organizações, nos discursos políticos por onde circula o conhecimento, eles não gostam realmente que seus ouvintes, fiéis, seguidores saibam. Quando estudamos sociologia, estamos lidando com a sociedade e a sociedade está dividida em grupos e subgrupos. Em Angola, eles estão divididos em: bajuladores, religiosos, comitês ou conjunto de especialidade e grupo de intelectuais que não partilham os saberes para a democratização do conhecimento. Depois, muitos deles afirmam que há democracia…

O estudioso português e professor Diogo Freitas do Amaral[3], (2003. p. 62) diz que … O Estado entre nós é administrado pelo interesse do povo e não de uma minoria. (…) Sobre a questão da liberdade de opinião, todos dizem livremente o que entendem sobre os negócios públicos, pois a democracia sem liberdade de opinião e de manifestação, sem liberação dos livros que possam ajudar os cidadãos a se livrarem das amarras doutrinais, não é possível. Boaventura Sousa Santos nos conscientiza falando que a democracia não é simplesmente pelo voto direto ou indireto, mas pela participação efetiva da cidadania em todos os domínios sociais, culturais ou políticos.

Malawi - PAA - escola
Malawi – PAA

Se a democracia é “governo baseado no poder do povo”, o povo sem conhecimento sabe o valor democrático? Para sair do baixo nível é preciso democratizar o conhecimento. O povo que não lê, é como cavalo sem mestre. O complicado também é que os livros são mais caros em Angola! Se pesquisarmos os preços das mercadorias em Angola veremos, por exemplo, que algumas coisas são bem mais baratas que os livros. Penso que as leis comerciais deveriam repensar isso tudo… Os cigarros e cervejas são mais baratos porque deixarem o povo viciado em drogas, o que seria mais fácil para dominar? Vamos elevar Angola na visão literária, filosófica, sociológica e sócio-histórica. Vamos elevar a visão cultural, mas não apenas na música, na dança ou na pintura, mas na literatura, na filosofia. O meu desejo louco seria que baixassem os preços dos livros e aumentassem os preços dos cigarros e cervejas.

A visão que a diáspora tem de Angola é tão fraca… Para muitos estrangeiros, o país é produtor de música kuduru. Angola é vista de fora como país de dançarinos de kuduru. Tudo bem, mas cadê a outra parte de Angola, o outro lado, por exemplo, de conhecimento científico e cultural racional? Domingos da Cruz quando publicou a primeira obra literária “Quando a guerra é necessária e urgente” confesso que antes, nunca tinha ouvido algo semelhante, que um livro provoca guerra, só mesmo em Angola que um autor pode ser processado criminalmente por uma obra literária ou acadêmica. O livro de Cruz é apenas um livro que ajuda os leitores angolanos e não só, a pensarem Angola.

Portanto, vamos pensar e não reprimir as vozes da juventude. Vamos partilhar os conhecimentos. Os jovens têm sede de serem ouvidos e viverem o sonho de sermos democráticos. Paulo Freire nos ensina que autoridade não é autoritarismo. A ‘Geração da Utopia’ de Pepetela demonstra a utopia sociopolítica de Angola. Esse livro é tão bom para Angola… Ele contextualiza a realidade sociopolítica e histórica do país.

Vamos colocar as mãos, os dedos por meio das folhas de livros. Livros reflexivos! Estou a dizer livros reflexivos e não livros de doutrinas caducadas. Voltando para a democracia, eu não sinto a famosa democracia. Será que a democracia está na TPA, TV zimbo ou Canal dois? Por que a TPA, TV Zimbo entre outros meios de comunicação de massa não abrem canais ou apenas programas de oficinas literárias? Porque conservam e monopolizam o conhecimento nessa era, em pleno século XXI. A tecnologia pode ser utilizada para manipular o exercício de verdadeira democracia. Em Angola, nem todos têm acesso às mesmas tecnologias, nem todos conseguem usar a tecnologia para aprender.

E mais o foco em Angola, está mesmo no acesso. Porque a internet é ainda um “luxo” é tão caro. E isso é extremamente absurdo. O conhecimento da realidade dentro de Angola tem sido escondido. Sabemos através da história que, na Idade Média, só a elite do clero tinha acesso aos livros e os mesmos detinham todos os saberes e segredos. Mas hoje, quem tem esses privilégios do conhecimento? Quase todos/as, mas não… Não digo apenas, os jornalistas, políticos, religiosos, mas também os professores que não compartilham o que sabem, temendo do medo de que os outros serem mais conhecedores que eles. Visão egoísta do conhecimento em Angola, essa mesma visão é arcaica.

Escola Chilrock - Foto: Manoela Baltar
Escola Chilrock – Foto: Manoela Baltar

A situação entre alguns professores tradicionalistas em conservar o conhecimento se assemelha com o modo que os políticos temem os cidadãos que questionam e refletem a sua realidade. E eles mesmos reprimem todos e todas aquelas que se manifestam por causa das incoerências sociais e governamentais.

O homem e a mulher só evoluem quando o pensamento reflexivo se toma uma direção da tolerância e da partilha da informação. Como o país é refém de dependência, continuamos perdidos na ignorância e analfabetismo. Será que esperamos os chineses para nos ensinarem a ler? Ou será que é preciso que a união Europeia dite ordens para abaixarem os preços dos livros? Ou a TV brasileira coloca nas suas telenovelas para que todos os cidadãos aprendam? Todas essas perguntas merecem um pouco de reflexão dos angolanos. Temos que ter a nossa política cultural, política de gestão nacional e não ficar imitando os portugueses, brasileiros, cubanos ou russos. Devemos lutar por uma escola onde os adolescentes saibam ler, pelo menos, um livro completo por ano. Malcolm X [4], 1965 já dizia sobre o verdadeiro conhecimento.

[…] “O verdadeiro conhecimento” sempre nos foi escondido (…). O verdadeiro conhecimento aqui reconstituído, muito mais sucintamente do que me foi explicado, era o de que a história havia sido “embranquecida” “nos livros de história do homem branco e que o homem preto sofrera” uma lavagem cerebral por centenas de anos”. O homem original era preto, no continente chamado África, onde a raça humana surgira no planeta Terra. O maior crime da história humana era o tráfico de carne preta, quando o demônio homem branco fora para a África, assassinara, sequestrara a fim de levar para o ocidente, acorrentados, em navios negreiros de homens, mulheres e crianças pretos, que eram tratados, espancados e torturados como escravos (MALCOLM X ,1965., p. 177).

Hoje, essa história se inverteu, os próprios “angolanos” africanos que escondem, massacram, torturam mulheres e jovens que lutam pela liberdade de opinião. Os maiores ditadores estão na África, o “demônio e o homem negro” em sentido angolense. O povo só partilha o sofrimento. Eles só partilham o sofrimento e a ignorância. Temos que lutar pela democratização da informação realística e não ficção da nossa realidade. ‘Sim, nós podemos’. Não esperemos que venham de fora para nos ensinar, ou seja, não podemos esperar somente os estrangeiros a nos transmitirem os conhecimentos.

Como já vimos, durante muito tempo em que os colonizadores portugueses estavam no território africano não ensinaram nada sobre a nossa história ou cultura. As nossas crianças e jovens inventam coisas que todo mundo admira. Sim, existem jovens angolanos que inventam coisas que o mundo precisa. Por isso espero que o conhecimento não seja privilégio de poucos e espero que os jovens procurem ler mais e debatam mais sobre o que leem. O conhecimento se não for partilhado não dá frutos, e uma das fontes para a busca do conhecimento está nos livros. Jovens como eu procuram mais bibliotecas e não cervejas nem festas. O conhecimento é possível para todas as pessoas, mas desde que desejem e procurem.

[2] Mora, Ferratera José. Dicionário de filosofia. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1982; ( p. 74).

[3] AMARAL, Freitas do Diogo. Histórias das Ideias políticas. Vol I. Almedina, Coimbra 2003.

[4] MALCOLM X. Autobiografia. (1925-1965). New York. U AS 1964. Reynolds. Com a colaboração do Alex Haley. Tradução de A. B. Pinheiro de Lemos. Editora Record, Rio de Janeiro. 1999.


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