África na Universidade: O encontro da República Democrática do Congo com Minas

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captura-de-tela-2016-11-28-as-18-01-33Este texto faz parte da revista Intercultural, publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais. O material foi enviado ao Por dentro da África.  

Por Taiany Gonçalves, Universidade Federal de Minas Gerais 

A vontade de trilhar um caminho diferente foi o que guiou a escolha de Arnaud. Ele tinha outras opções de viagem, principalmente por ter alguns tios residentes na Europa e na África do Sul. Seria mais fácil optar por um lugar em que muitas coisas já estivessem encaminhadas. Porém, quem disse que o jovem queria facilidade na vida?

“Eu queria fazer um caminho sozinho. Naquela época eu estava pensando em ir para o Canadá ou para os Estados Unidos, mas eu tenho amigos que falaram que lá é cada um na sua”, conta. Em uma conversa sobre o futuro, um amigo lhe fez uma despretensiosa sugestão, que acabaria levando-o ao encontro do país que um dia foi a pátria de chuteiras. “Meu amigo me disse: ‘Por que você não pensa no Brasil?’”, relembra Arnaud.

A história de um dos maiores times de futebol do mundo foi e ainda é construída com a ajuda de grandes craques brasileiros, como Romário, Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho e Neymar. O Barcelona ocupa um lugar no coração de milhares de pessoas no mundo, inclusive no do congolês, que só conhecia o Brasil por causa de sua paixão por esse esporte. “O que a gente sabe daqui é sobre o futebol e sobre aqueles grandes nomes, como Ronaldo. Quando meu amigo me fez aquela sugestão, eu logo disse: ‘O que tem lá? É futebol e o quê mais?’”, conta com muito humor.

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A curiosidade surgiu. Arnaud iniciou suas pesquisas para saber se valeria a pena se arriscar dessa forma e ir para um lugar tão desconhecido para ele. No entanto, em suas buscas, descobriu que havia muito mais coisas em comum entre África e Brasil do que ele poderia imaginar. “Eu vi que a África realmente tem uma história, um vínculo muito grande com o Brasil. Então, eu pensei que não iria estranhar muito ao chegar aqui”, explica.

O processo seletivo foi tão rápido que não deu tempo do congolês terminar o curso preparatório, que estava fazendo em seu país, para iniciar a graduação em Engenharia. Com o anúncio do resultado positivo, ele teve que abrir mão desses estudos para então começar uma nova vida distante dali. Porém, antes de vir para o Brasil, teve uma surpresa.

O estado escolhido para passar os seus próximos anos não era a sua primeira nem segunda opção. “Ninguém escolhe Minas Gerais. Todo mundo escolhe Rio ou São Paulo. Eu não sabia nada sobre Minas. Foi a minha terceira escolha. Mas as nossas notas são recolhidas pela embaixada e enviadas para o governo daqui, que propõe nas universidades. E foi a universidade mineira que me escolheu”, explica. Quando leu a palavra “Belo Horizonte”, Arnaud não sabia do que se tratava. “Perguntei o que era Belorrizonté?”, diz ele com seu sotaque francês. Mesmo sem saber o que seria, já estava ansioso para conhecer e desvendar esse “mistério”.

Além dessas dúvidas, ele ainda teria que vencer o seu medo e o de seus pais sobre o que lhe aguardava nesse lado do Atlântico. “Tipo assim…Tenho um convênio com o governo. Mas a questão é que você vai num país que não conhece, com uma cultura e uma língua que você não conhece. Você fica com medo e os pais também”, revela. Contudo, os amigos que já moravam aqui disseram que o Brasil é um país tranquilo e que ele poderia vir sem medo.

Um lema: independência

Photograph by Pascal Maitre
Photograph by Pascal Maitre

Vindo de uma família de classe média de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo, onde o pai trabalha em uma empresa de distribuição de água – como a Copasa em Minas Gerais – e a mãe vende roupas, Arnaud sempre aprendeu a se virar para adquirir suas coisas. E aqui no Brasil não é diferente. Sem contar com ajuda de custo do governo, ele dá aulas de inglês e francês em uma escola de idiomas para se sustentar. “O convênio só garante a faculdade e a sua formação. Quem sustenta a gente, normalmente, é a família. Mas a gente não fica num lugar quadrado, e vai se virando. Eu falei para os meus pais: ‘Cuidem de vocês aí, que eu vou cuidar de mim aqui.’ Então, comecei a dar aula na Wizard. Isso ajuda a pagar o aluguel da casa e as contas. Eu dependo de mim mesmo e do cara lá de cima”, conta apontando para o céu.

Essa busca pela independência sempre esteve presente na vida de Arnaud e, segundo ele, é algo bastante recorrente em seu país. “Os pais africanos criam os meninos do jeito deles para que, ao chegar num determinado momento, eles saiam de casa e se virem como homens. Tem a saudade da família, mas ao mesmo tempo você pensa que precisa fazer algo. Você precisa viver. Nós fomos educados para sair do ninho”, explica. Entretanto, nem por isso ele caracteriza a sua criação como distante. Seus pais sempre estiveram presentes e muito próximos dele e da irmã.

E é só falar da irmã que seu lado ciumento desperta. Ao se lembrar que ela se casará em breve, Arnaud Zalete, bem humorado, comenta a situação. “Minha irmã vai se casar e eu também não sabia. Fiquei sabendo há pouco tempo. Eles sabem que se eu tivesse descoberto antes já teria ido lá e batido no cara. Minha irmã não pode se casar”, brinca o congolês. Surge então uma boa ocasião para rever a família depois de quase 4 anos.

É congolês e não desiste nunca

Arnaud e Peter, da República Democrática do Congo
Arnaud e Peter, da República Democrática do Congo

A cultura e a forma de ser dos mineiros causou um certo estranhamento em Arnaud. A disposição dos nativos deste estado em ajudar é o que mais chama a atenção dele. “Aqui chega a ser estranho. O pessoal chega e conversa com você numa boa. Às vezes você tenta falar e a pessoa tenta te ouvir com cara de quem está entendendo. Mesmo quando ela não entende, tenta te ajudar. Isso é legal com o mineiro, um povo que está sempre pronto para te ajudar”, conta com gosto.

Quanto à UFMG, as opiniões, em sua maioria, são positivas. O graduando em Engenharia exalta não só a qualidade da universidade, mas também a boa relação estabelecida com os alunos e professores. Todavia, existem pontos a serem melhorados, como a assistência por parte do Colegiado de Graduação, segundo ele. O congolês conta que quando chegou à instituição não sabia detalhes sobre seu curso e nem o que era grade curricular. Não sabia sequer quantas disciplinas teria que cursar. “Fiquei realmente perdido. Eu só ia para a aula”, se diverte ao relembrar. Ele teve que pedir ajuda a um amigo. Por essa dificuldade encontrada, o jovem acredita que a vida acadêmica precisa ser mais bem guiada e orientada para os estrangeiros.

“Uma coisa que nunca tinha acontecido comigo era aquela coisa de ser revistado pela polícia. Pensei em desistir no momento em que isso aconteceu”, diz Arnaud Zalete com bastante desânimo e tristeza ao lembrar da situação. Ele consegue relembrar em detalhes o constrangimento que passou e que ainda passa ao ser abordado pela polícia.

“Você está num ponto de ônibus e param só você. Ou você está voltando para casa cansado, com fome, querendo dormir… e a polícia te para. Ou mesmo em casa. Uma vez estava conversando com um amigo, também africano, na porta de casa, e a gente foi parado. Por um lado, eu entendi que é o trabalho do pessoal, mas me senti mal e incomodado. É uma coisa que a gente não está acostumado. Nunca teve isso no meu país. Senti que não estou aqui e pensei em ir embora”, conta Arnaud. “Minha mãe chegou a me ligar. Eu não sei como, mas as mães sentem. Ela me ligou e falou: ‘Arnaud, o que está acontecendo? Você está triste.’ Mas eu não contei nada”, conclui.

À exceção dessas experiências com os militares, o persistente congolês não pensou mais em desistir. Nem mesmo o racismo sofrido foi capaz de desestruturá-lo. “Eu já passei por essas atitudes de discriminação e de segregação. Já percebi pessoas olhando diferente para mim várias vezes, mas não fico incomodado. Eu penso que o importante não é o que essa pessoa está pensando de mim, mas sim o que eu estou pensando de mim e o que eu quero fazer. Tem gente que me tratou muito bem nesse país e é para elas que eu olho. O resto não é da minha conta”, ressalta. Com uma visão mais leve e madura sobre a vida, Arnaud demonstra que não se deixa abater.

O futuro: um belo horizonte

Universidade Federal de Minas Gerais

Na metade da graduação, o futuro engenheiro civil ainda não sabe o que fazer e para aonde vai após a formatura. Seu principal objetivo é trabalhar, ganhar dinheiro, ajudar a seus pais e construir a sua própria família. Onde isso tudo ocorrerá? Ele ainda não sabe. Na tentativa de conseguir mais alguns detalhes sobre suas decisões, crio duas situações para ver por qual ele opta. Entre duas propostas de emprego com o mesmo salário aqui e no Congo, Arnaud escolhe o Brasil. “Acho que fico aqui, por causa do hábito. Uai, eu já estou vivendo aqui desde 2012”, diz. Ao longo da entrevista algumas gírias foram ditas pelo congolês, como “tipo assim” e “’tô’ nem aí”.

O “uai” é o que mais me impressiona e eu o interpelo por isso. Ele justifica esse mineirês pelo costume e conclui que é por isso que a maioria dos intercâmbios são de, no máximo, um ano para que a pessoa não se acostume com o lugar. “O nosso caso é diferente, porque estamos fazendo aqui um convênio a longo prazo. Você faz a faculdade por cinco, seis anos e muitos fazem o mestrado e tudo mais. Isso faz com que a gente se torne brasileiro mesmo”, finaliza Arnaud, além de universitário, professor de inglês e francês, futuro engenheiro, africano e congolês, ainda encontra espaço para ser brasileiro e mineiro.



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